
A Carta / parte 1
A primeira frase do dia, a avó disse: "Vou ver se tem comida pros passarinhos..."
Antes de sair, escreveu pra ele: "Se tá difícil pode piorar...ou será melhorar?"
Voltando pra casa....
escutava uma canção, "E gira, gira a roda
É a roda a girar
Quem não entrar na roda
Também vai rodar" ...
O fato é que há alguns dias sentia que o ciclo se concluía e isso lhe trazia alegria e angústia.
A alegria vinha de viver começo, meio e fim.
Da sensação de dever se cumprindo.
Do sentimento de que agora haverá tempo, trabalho, gana... e quem sabe, grana.
De viver o processo inteiro...começando no começo, terminando no fim. E inteira.
A angústia vinha com a nostalgia.
De chegar ao fim. De lembrar que as coisas se acabam.
Do sentimento de deixar a grama, o céu, os amigos.
Da sensação de deixar que os mestres partam, porque o trabalho se cumpriu.
De depois de tanto aprender, continuar com a sensação de não saber nada.
Enquanto voltava pra casa, depois de uma simbólica despedida, que ainda não era um fim, chorava.
Pensava e repensava em como tudo aquilo lhe afetava.
Em como tudo tinha tido um tempo perfeito.
Em como dentro do começo, meio e fim, existiram tantos começos, meios e fins.
Pensava no começo de cada começo. No emaranhado dos meios. Na estranheza dos fins.
Em como sua mente era capaz de guardar tantas lembranças.
Nos detalhes....muitos apenas inventados.
Nas articulações que ao longo do tempo se fizeram naturalmente.
E nas coisas poéticas que aquele lugar que alguns dias depois deixaria, lhe trouxera.
O céu muito azul, quando a vida tinha olhos azuis.
A lua muito cheia, quando seu amor se esvaziava.
O bambuzal em dias do inevitável.
O quanto seu corpo havia suado, exaurido, e se superado.
Sua mente era um campo minado e ela errava os passos.
A cada segundo as bombas de emoção explodiam no cérebro e reverberavam no coração.
Havia caminhado apenas alguns metros, distraidamente atenta às suas memórias.
Passava pelo caminho de costume.
Não queria encontrar ninguém.
Lembrou: "Isto que um dia foi o olhar de alguém.Alguma coisa que viu e que nunca vai esquecer mesmo ja não sabendo mais o que é...Alguém que você viu chorando, ao atravessar a rua, e te fez reduzir o passo."
Voltou. Não viu nada. Seguiu. Retornou sem certeza.
'Abriu os olhos', olhou pro chão e viu.
Um filhote tentando voar.
Ele olhava pra cima.
Havia um buraco.
Ensaiava o vôo de alguns centímetros.
Saltava para dentro do buraco, mas caía.
A cena se repetiu algumas vezes e ele cansado, cambaleou.
De frente pro muro, ele olhava pra cima. E ela seguia seus olhos de passarinho.
Foi até ele. Quis ajudar.
Foi tomada pela sensação do cuidado, amiga íntima.
Abaixou-se...mas ele se assustou.
Correu ou vôou...foi parar longe.
Ela olhou em volta. Procurou. Exitou.
Reconheceu que não poderia ir embora assim. No meio.
Recuou alguns passos e achou.
Ele havia caído para fora do passeio e estava deitado na grade do bueiro.
Ela temeu. Quis protegê-lo. Quis ser passarinha pra ele não se assustar.
Ao primeiro passo dela, ele se mexeu e caiu.
Ele caiu.
Caiu onde ela não podia mais vê-lo.
E ela se assustou.
Emitiu algum som. Fez alguma cara.
E olhou como quem perde algo incrivelmente precioso.
Um passarinho machucado.Um filhote.
Um homem se aproximou enquanto ela parada,
Estática, se recompunha do choque de vê-lo caindo no fundo do bueiro.
Constatava-o muito frágil para sobreviver naquele lugar tão áspero e voar para fora dele.
Ela pensava na morte.
O homem disse: Um passarinho?
Se aproximou do bueiro. Um Pardal. Ainda está vivo.
Ela seguiu. Caminhou.
Lembrou outra vez:
" E um dia bate à sua porta. Cheia de malas. Cheia de coisas. De veias abertas."
Refez o caminho na cabeça.
O caminho de casa.
O caminho dos pensamentos.
Tentou se lembrar de como tudo aquilo tinha começado.
Refez o dia.
Se lembrou da frase da avó.
Cantarolou a música.
Pensou nas despedidas.
As breves.As dolorosas.As que nunca acabam.As inventadas.
Pensou que uma vida, pode ser um dia.